Por que a confiança atribuída aos agentes de IA vai definir a próxima era dos pagamentos
*Mentxu Trivino
Durante décadas, a indústria de pagamentos operou sob uma premissa simples de que toda transação dependia da autorização direta de uma pessoa. Um cartão inserido na máquina, uma biometria, um código de autenticação ou um clique para concluir a compra. Mesmo com a evolução dos pagamentos por aproximação, das carteiras digitais e do checkout em um clique, esse princípio permaneceu praticamente inalterado.
O avanço da inteligência artificial, porém, começa a alterar essa lógica. No comércio baseado em agentes, o consumidor passa a delegar previamente a um assistente de IA a capacidade de pesquisar produtos, comparar ofertas e, em determinados casos, concluir compras em seu nome.
A questão deixa de ser apenas se um pagamento pode ser processado. O novo desafio é saber quem ou o que está autorizando aquela transação, quais são os limites dessa autorização e quem responde caso algo saia do previsto.
É justamente nesse contexto que surge um novo conceito: Know Your Agent (KYA), ou “Conheça seu Agente”. Se o tradicional Know Your Customer (KYC) ou “Conheça seu Cliente”, identifica quem está por trás de uma conta, o KYA busca validar a identidade, o mandato e os limites de atuação dos agentes inteligentes antes que eles iniciem uma transação financeira.
Essa discussão deixou de ser futurista. A IA já faz parte da jornada de compra de milhões de consumidores ao redor do mundo, principalmente nas etapas de pesquisa, comparação de preços e recomendação de produtos. O próximo passo é a conclusão autônoma da compra, um movimento que avança mais rapidamente do que a evolução das estruturas regulatórias e dos mecanismos de confiança.
Essa mudança também esbarra na confiança do consumidor. Um levantamento realizado pela Nuvei com consumidores norte-americanos mostra que 58% dos entrevistados consideram a IA útil para pesquisar produtos e comparar preços, mas apenas 27% afirmam que se sentiriam confortáveis em armazenar seus dados de pagamento em plataformas de inteligência artificial. Os resultados mostram que o maior desafio da próxima geração dos pagamentos não será apenas tecnológico, mas também de confiança.
O potencial desse modelo explica por que o tema ganhou prioridade na indústria. Segundo estimativas da McKinsey, o comércio realizado por agentes de inteligência artificial poderá movimentar trilhões de dólares no varejo global até 2030. Quanto mais rapidamente esse mercado crescer, maior será a necessidade de mecanismos capazes de validar identidade, autorização e responsabilidade nas transações realizadas por agentes autônomos.
Esse novo modelo de consumo também exige uma revisão da arquitetura dos pagamentos. As infraestruturas de pagamento foram desenhadas para um comprador humano, capaz de visualizar, reconhecer, autorizar e, posteriormente, contestar uma transação. Quando a compra passa a ser executada por um agente de IA, esse modelo deixa de responder a perguntas fundamentais.
Como verificar se aquele agente é legítimo? Em nome de quem ele está agindo? Quais limites o consumidor estabeleceu em relação a valores, categorias de produtos, estabelecimentos ou período de validade da autorização? E como comprovar a intenção do consumidor caso uma transação seja contestada?
Responder a essas questões exigirá uma nova camada de confiança na infraestrutura de pagamentos. Ela deverá validar a identidade do agente, interpretar seu mandato e garantir que cada transação seja encaminhada de acordo com as regras de risco, compliance e autenticação aplicáveis.
Ao mesmo tempo, outro desafio surge com a multiplicação dos protocolos utilizados pelos diferentes agentes de IA. Cada plataforma tende a desenvolver seus próprios padrões de comunicação, criando um ambiente fragmentado. Será papel da infraestrutura de pagamentos absorver essa complexidade, garantindo interoperabilidade entre agentes, comerciantes, instituições financeiras e redes de pagamento.
Embora a inteligência artificial opere em escala global, a experiência de pagamento continua profundamente local. Um consumidor brasileiro continuará esperando pagar com Pix, enquanto outros mercados seguirão priorizando seus próprios métodos de pagamento. É justamente essa adaptação ao contexto local que permitirá aos agentes de IA oferecer experiências realmente fluidas.
Por isso, confiança e execução passam a ser inseparáveis. Não basta que um agente seja identificado corretamente; ele também precisa operar dentro dos limites autorizados e utilizar os meios de pagamento adequados para cada mercado.
Durante muitos anos, o grande desafio da indústria foi ampliar a aceitação dos pagamentos digitais. A próxima etapa será construir mecanismos capazes de garantir que agentes inteligentes possam agir de forma segura, transparente e responsável em nome dos consumidores.
A transformação do comércio digital não dependerá apenas de inteligência artificial cada vez mais sofisticada. Ela exigirá uma nova infraestrutura de confiança, capaz de assegurar que a delegação de decisões financeiras ocorra com segurança, rastreabilidade e responsabilidade. A próxima geração dos pagamentos não será definida apenas pela inteligência artificial, mas pela capacidade de confiar nela.
* Mentxu Trivino é vice-presidente de Parcerias de Pagamentos da Nuvei


