sexta-feira, junho 26, 2026

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“Pela primeira vez em anos, parei de pensar em comida”

Relato de pacientes reacende debate sobre o “barulho alimentar” e reforça uma mudança na forma como a medicina enxerga a obesidade

A obesidade ainda costuma ser vista como consequência de excesso de comida, falta de disciplina ou descontrole. Mas essa visão já não acompanha o que se conhece hoje sobre a doença, considerada uma condição crônica e multifatorial, influenciada por fatores biológicos, hormonais, neurológicos, emocionais, comportamentais e ambientais.

“Um dos erros mais comuns é colocar todos os pacientes com obesidade na mesma narrativa. Nem sempre há compulsão, excesso alimentar evidente ou uma relação direta com comer muito. A obesidade é uma condição heterogênea e precisa ser tratada dessa forma”, explica Flávia Lucena, nutricionista e psicóloga especializada em comportamento alimentar.

Nos últimos anos, ganhou visibilidade o chamado food noise, ou “barulho alimentar”, expressão usada para descrever pensamentos frequentes sobre comida, antecipação constante das refeições e dificuldade de desviar a atenção do ato de comer.

Para Flávia, o conceito pode ajudar pacientes que se identificam com essa experiência, mas não deve ser tratado como explicação universal para a obesidade. “Há pessoas com obesidade que não pensam em comida o tempo todo, não percebem excesso alimentar e, ainda assim, convivem com uma doença metabólica complexa”, afirma.

A especialista lembra que a obesidade pode estar relacionada a diferentes mecanismos, como alterações na fome e na saciedade, adaptação metabólica, privação de sono, histórico de dietas restritivas, sofrimento psíquico, predisposição genética e mudanças hormonais que favorecem o reganho de peso.

Nesse contexto, medicamentos voltados ao tratamento da obesidade passaram a ocupar um papel mais importante. Entre eles está a tirzepatida, utilizada por pacientes que relatam mudanças não apenas no peso, mas também na relação com a comida.

A jornalista Kaísa Romagnoli conhece essa experiência. Após reduzir o peso de 120 para 68 quilos com cirurgia bariátrica, voltou a ganhar peso e chegou aos 89 quilos. Ao iniciar o tratamento com tirzepatida, percebeu uma mudança significativa. “Pela primeira vez em muitos anos, parei de pensar em comida o tempo todo. Foi como se um ruído constante simplesmente diminuísse”, relata.

Segundo Flávia, esse efeito faz sentido do ponto de vista clínico. “A tirzepatida não desliga a fome. Ela atua em mecanismos hormonais e cerebrais ligados à saciedade, ao apetite e à recompensa alimentar. Em alguns pacientes, isso reduz a urgência para comer e faz com que a comida deixe de ocupar um espaço tão central nos pensamentos.”

A especialista ressalta, porém, que medicamentos são ferramentas importantes, mas não resolvem sozinhos a complexidade da obesidade. “Quando um paciente melhora, não significa que encontramos uma solução mágica. Significa que passamos a atuar em mecanismos que antes trabalhavam silenciosamente contra ele.”

Essa compreensão também ajuda a explicar por que manter o peso perdido costuma ser tão difícil. O organismo tende a defender um determinado padrão corporal e pode responder ao emagrecimento aumentando a fome, reduzindo a saciedade e diminuindo o gasto energético.

“Por isso, o tratamento da obesidade não deve ser encarado como um evento pontual, mas como um processo contínuo de cuidado. O paciente precisa compreender como seu corpo funciona, reconhecer gatilhos, desenvolver hábitos sustentáveis e construir estratégias que possam ser mantidas ao longo da vida”, diz Flávia.

Na avaliação da especialista, uma das principais mudanças na abordagem da obesidade é abandonar a lógica da culpa e substituí-la por um acompanhamento individualizado e de longo prazo. “Quando entendemos que a obesidade envolve mecanismos biológicos reais, deixamos de perguntar por que o paciente não conseguiu emagrecer e passamos a investigar o que ainda não foi suficientemente compreendido naquele caso”, conclui.

Nesse cenário, a redução do chamado “barulho alimentar” pode representar uma transformação importante para alguns pacientes, mas continua sendo apenas uma parte de um quadro muito mais amplo. O avanço está em reconhecer a obesidade como uma doença complexa, que exige estratégias personalizadas, acompanhamento contínuo e respeito à trajetória de cada pessoa.

Sobre

Flávia Lucena é nutricionista e psicóloga, especialista em comportamento alimentar e criadora do Método Nutrição com Acolhimento®. Sua abordagem integra nutrição clínica funcional, psicologia comportamental e escuta aprofundada da relação das pessoas com a alimentação, promovendo uma visão que considera não apenas aspectos físicos, mas também emocionais, sociais e comportamentais do ato de comer. Atua com foco na construção de uma relação mais consciente, flexível e sustentável com a alimentação, auxiliando pacientes em diferentes fases da vida por meio de atendimentos presenciais e online.

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