Bots já respondem por 53% da atividade na web e mudam a análise de tráfego, conversão e investimento digital.
Um pico de visitas costuma ser recebido como sinal de que a campanha funcionou. O entusiasmo diminui quando o volume não produz vendas, pedidos de orçamento ou conversas comerciais. Parte dessa diferença pode estar na origem dos acessos. Sites, aplicativos e lojas virtuais recebem requisições de pessoas, mecanismos de busca, assistentes de inteligência artificial e programas automatizados capazes de simular o comportamento de usuários reais.
Para Leandro Ferrari, especialista em marketing digital, o avanço dos bots exige uma leitura mais criteriosa dos indicadores. Sessões, visualizações e cliques continuam relevantes, mas perdem valor quando são analisados sem informações sobre procedência, comportamento e intenção. Uma audiência numerosa pode esconder tráfego sem potencial de compra e levar a empresa a investir com base em uma percepção equivocada de demanda.
O alerta ganhou força com o Bad Bot Report 2026, levantamento anual da Imperva, empresa especializada em segurança de aplicações e dados. O estudo acompanha a atividade automatizada em sites e APIs e tem relevância por reunir informações de tráfego global durante todo o ano de 2025. Segundo o relatório, bots responderam por mais de 53% da atividade na web, ante 51% no ano anterior. A participação humana recuou para 47%, enquanto os bots maliciosos representaram cerca de 40% do tráfego total.
O percentual global não deve ser aplicado mecanicamente ao painel de uma empresa. A incidência varia conforme setor, plataforma, campanha, período e proteção utilizada. Ainda assim, a inversão da proporção mostra que uma visita registrada já não pode ser interpretada automaticamente como contato com um consumidor. Rastreadores de buscadores e serviços de monitoramento exercem funções legítimas. Outros sistemas coletam preços, tentam acessar contas, preenchem formulários falsos, testam cartões ou produzem cliques fraudulentos.
“Quando a empresa confunde atividade técnica com interesse comercial, ela superestima a força da campanha e pode aumentar o orçamento de uma fonte que não atrai compradores. O problema aparece no custo de aquisição, na taxa de conversão e até na avaliação de uma oferta”, afirma Ferrari.
A distorção pode avançar por toda a operação. Cliques artificiais consomem verba publicitária, visitas automatizadas contaminam testes de páginas e cadastros falsos ocupam o tempo das equipes de vendas. Carrinhos criados por robôs também prejudicam projeções de demanda, enquanto acessos repetidos podem formar públicos de remarketing com pouca qualidade. O resultado é um relatório movimentado, mas incapaz de explicar o desempenho financeiro.
A identificação desse tráfego depende da combinação de dados. Picos repentinos sem causa aparente, permanência muito curta, repetição excessiva de ações, horários incomuns e concentração de acessos em determinadas origens merecem investigação. Também convém comparar os números da plataforma de anúncios com os registros do site, do sistema comercial e das vendas efetivamente concluídas. Divergências persistentes podem indicar falhas de mensuração, configuração inadequada ou automação indesejada.
“O diagnóstico precisa observar a jornada inteira. Se uma campanha entrega milhares de acessos, mas quase ninguém avança para etapas que exigem intenção real, a empresa deve verificar a qualidade desse público antes de culpar a página, o produto ou a equipe”, explica o especialista.
A resposta também envolve áreas que muitas vezes trabalham separadas. Marketing acompanha aquisição e conversão; tecnologia analisa servidores, APIs e padrões de acesso; segurança identifica tentativas de fraude e abuso. A integração dessas leituras permite bloquear atividades maliciosas sem impedir rastreadores legítimos, comparadores de preço e agentes de inteligência artificial que podem levar produtos e conteúdos a consumidores.
Com máquinas ocupando uma parcela maior da internet, volume isolado deixa de oferecer uma fotografia confiável do mercado. Visitas, leads e cliques precisam ser confrontados com sinais de
Intenção, qualidade e receita. Sem essa verificação, o negócio corre o risco de comemorar uma audiência que nunca esteve perto de comprar.
Por Diego Baião
