Nessa fase, o início da vida escolar é uma transição delicada que pede escuta, previsibilidade e acolhimento
O começo do ano letivo marca um momento especialmente sensível para milhares de famílias brasileiras. Na primeira infância, fase que compreende os primeiros anos de vida, esse período muitas vezes não representa uma volta às aulas, mas o início da vida escolar da criança. Trata-se do primeiro contato com um ambiente estruturado fora do núcleo familiar, o que envolve separação dos cuidadores, novas rotinas, estímulos desconhecidos e a construção dos primeiros vínculos sociais.
A especialista em Educação Infantil com atuação internacional, Roberta Scalzaretto, aponta que esse processo exige cuidado e escuta. “Choro persistente, alterações no sono, maior necessidade de colo e resistência à escola são manifestações comuns nessa fase inicial e não devem ser interpretadas como comportamento inadequado. São respostas naturais de um sistema emocional ainda em formação”, aponta. Dados do Unicef e do Ministério da Saúde indicam que é justamente na primeira infância que se estruturam bases essenciais da segurança emocional, da capacidade de vínculo e da autorregulação.
Para Roberta o cuidado deve ser ainda maior quando se trata de bebês de 0 a 3 anos. “Nessa faixa etária, a criança ainda não compreende a separação como algo temporário. O afastamento do cuidador pode ser vivido como uma ruptura real, por isso a adaptação precisa ser gradual, previsível e afetivamente sustentada”, explica. Segundo ela, forçar o processo ou minimizar as reações emocionais pode gerar insegurança e dificultar a construção do vínculo com a escola. Ela ressalta que a adaptação não envolve apenas a criança, mas também os pais. O modo como os adultos vivem esse momento influencia diretamente a forma como a criança percebe a escola e a separação.
Preparar-se emocionalmente e transmitir segurança ajuda a tornar a transição mais confortável para toda a família. Com pequenas atitudes no dia a dia, o início da vida escolar pode se tornar mais acolhedor.
- Retomar a rotina alguns dias antes do início das aulas ajuda a criança a se sentir mais segura diante de horários previsíveis.
- Explicar a ida à escola de forma simples e afetuosa contribui para reduzir a ansiedade, mesmo quando a criança ainda não domina plenamente a linguagem.
- Evitar despedidas longas ou carregadas de insegurança transmite confiança e facilita o momento da separação.
- Manter uma comunicação próxima com a escola permite alinhar expectativas e respeitar o tempo individual da criança.
- Validar o choro e as reações emocionais, sem minimizar sentimentos, fortalece o vínculo e a sensação de acolhimento.
Na primeira infância, iniciar a vida escolar é atravessar uma transição emocional delicada, tanto para quem chega quanto para quem acompanha. Quando família e escola caminham juntas, com comunicação e sensibilidade, esse começo deixa de ser marcado pela insegurança e passa a representar o início de uma relação de confiança, cuidado e aprendizagem.
SOBRE
Roberta Scalzaretto é especialista em Educação Infantil com atuação internacional. Graduada em Magistério, Pedagogia e Psicopedagogia, possui experiência no Brasil e nos Estados Unidos, onde hoje integra uma escola de Educação Infantil aplicando princípios da abordagem Pikler. Com formação avançada nessa metodologia, nível alcançado por poucos profissionais brasileiros, baseia sua prática na observação sensível, no respeito ao ritmo da criança e na construção de vínculos que favorecem o desenvolvimento integral. No Brasil, idealizou o projeto Brinquedoteca: um olhar para o brincar no Colégio Porto Seguro Panamby e dedicou sua carreira à formação de educadores para a primeira infância. Sua trajetória combina técnica, pesquisa e vivência prática em dois países, consolidando-a como referência em práticas pedagógicas.

