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“Farmar aura”, “six seven” e o novo idioma da Geração Alpha: por que pais estão perdendo a comunicação com os filhos?

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Especialistas alertam que redes sociais estão criando códigos próprios de comportamento, linguagem e pertencimento, e ampliando a distância emocional entre gerações

“Farmar aura”, “six seven”, “cringe”, “delulu”, “flopar”, “NPC”. Para muitos pais, essas expressões parecem apenas mais uma leva de gírias da internet mas, para especialistas em comportamento, elas representam algo maior: a criação de um novo código social entre jovens, moldado pelas redes sociais, pela hiperconectividade e pela necessidade constante de pertencimento digital.

Mais do que mudar a linguagem, a internet vem alterando a forma como adolescentes e jovens constroem identidade, validam emoções e se relacionam com o mundo. O problema é que boa parte dos adultos já não consegue acompanhar essa dinâmica e isso tem ampliado a sensação de distanciamento dentro de casa.

“O que estamos vendo não é apenas uma mudança de vocabulário. Existe uma reorganização completa da forma como os jovens se expressam, criam vínculos e constroem pertencimento. As redes sociais aceleraram isso de forma muito intensa”, explica Ticiana Paiva, doutora em psicologia e head de psicologia da Starbem.

Segundo a especialista, muitas dessas expressões funcionam como códigos de grupo. Entender as referências virou uma espécie de passaporte social para participar de determinadas comunidades digitais. “O jovem passa a se comunicar através de referências rápidas, memes, trends e códigos que fazem sentido dentro daquele ambiente online. Quando os pais não compreendem esse universo, surge uma sensação de desconexão dos dois lados”, afirma.

Nas redes sociais, não basta apenas existir, é preciso performar. Expressões como “farmar aura”, por exemplo, fazem referência à tentativa de construir uma imagem admirável, misteriosa ou socialmente valorizada na internet. Já termos como “six seven”, popularizados recentemente entre adolescentes, refletem códigos internos de comportamento e pertencimento digital.

Para Ticiana, essa lógica cria uma pressão emocional silenciosa: “Muitos jovens vivem hoje em estado constante de auto observação. Eles começam a pensar não apenas em quem são, mas em como estão sendo percebidos o tempo inteiro. Isso gera ansiedade, comparação e uma necessidade contínua de validação”, explica.

A especialista destaca que a adolescência sempre foi uma fase marcada pela busca de identidade, mas a internet amplificou esse processo em uma escala sem precedentes. “Antes, o julgamento social ficava restrito à escola, aos amigos próximos ou à convivência física. Hoje, existe uma audiência permanente. O jovem sente que está sendo observado o tempo inteiro, mesmo quando está sozinho”, afirma.

O impacto não está apenas na linguagem. Muitos pais relatam dificuldade crescente em conversar com os filhos, entender referências culturais ou perceber sinais emocionais importantes.

“O problema não é o jovem usar gírias. O problema é quando pais e filhos deixam de compartilhar repertório emocional. Em muitos casos, os adultos não conseguem mais interpretar comportamentos, ironias, memes ou até pedidos de ajuda que acontecem dentro da linguagem digital”, diz Ticiana.

A especialista explica que parte da comunicação da nova geração acontece de forma indireta, através de vídeos, trends, reposts e conteúdos aparentemente banais.

“Muitas vezes, o adolescente fala sobre tristeza, insegurança ou exaustão através do humor e da ironia. Se os pais não conhecem minimamente esse universo, acabam perdendo sinais importantes de sofrimento emocional”, alerta.

A hiperconectividade também reduziu espaços tradicionais de convivência familiar. Refeições silenciosas, excesso de telas e rotinas aceleradas diminuíram conversas profundas dentro de casa.

“Hoje, muitas famílias convivem fisicamente, mas emocionalmente estão desconectadas. Cada pessoa está no próprio universo digital, consumindo linguagens e estímulos completamente diferentes”, afirma.

A necessidade de pertencimento nunca foi tão alta, por trás das trends e gírias, especialistas apontam um fator central: pertencimento. Segundo Ticiana, a internet se tornou um espaço onde jovens buscam reconhecimento, pertencimento, validação e identidade.

“O medo de exclusão sempre existiu, mas as redes potencializaram isso. O jovem sente necessidade de acompanhar tendências, entender referências e participar de determinados códigos para não se sentir invisível socialmente”, explica.

O problema é que essa dinâmica também aumenta ansiedade e sensação de inadequação. “A lógica digital cria uma percepção de que todos estão vivendo melhor, performando mais ou sendo mais interessantes. Isso alimenta comparação constante e desgaste emocional”, diz.

Para a especialista, o caminho não está em demonizar a internet ou proibir redes sociais, mas em reconstruir espaços de diálogo. “Os pais não precisam falar igual aos filhos nem dominar todas as trends, mas precisam demonstrar curiosidade genuína pelo universo deles”, afirma Ticiana.

Entre as principais recomendações estão:

  • Evitar ridicularizar gírias, referências ou interesses dos jovens;
  • Criar momentos de conversa sem telas;
  • Perguntar sobre conteúdos, trends e influenciadores que os filhos acompanham;
  • Observar mudanças abruptas de comportamento e aparência;
  • Construir escuta sem julgamento imediato.

“O que mais afasta adolescentes hoje não é a diferença de idade, é a sensação de não serem compreendidos. Quando existe abertura real para conversa, a linguagem deixa de ser uma barreira e passa a ser uma ponte”, conclui Ticiana Paiva.

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