Tema ganha destaque em “Quem Ama Cuida”, novela da TV Globo; psicólogo explica como a manipulação emocional é construída e orienta sobre sinais de alerta

Na trama “Quem Ama Cuida”, novela das 9 da TV Globo, Carmita, personagem interpretada por Deborah Evelyn, acredita estar vivendo um relacionamento amoroso com Edson (Vandré Silveira), mas acaba vítima de um golpe. Depois de fazer um grande empréstimo bancário para o namorado, ela deixa de conseguir contato com ele e passa a desconfiar da situação. É então que sua amiga Fábia (Flávia Alessandra) alerta que ela pode ter sido enganada.
A história ficcional coloca em evidência uma situação que também acontece fora das telas e ajuda a levantar uma questão importante: por que pessoas inteligentes, experientes e bem-sucedidas também podem ser vítimas de estelionato afetivo?
Segundo o psicólogo Filipe Colombini, a resposta passa longe da ideia de que existe um “perfil de pessoa ingênua” mais propenso a cair nesse tipo de golpe.
“Eu evitaria falar em um perfil psicológico específico ou em uma personalidade pré-definida. Isso pode simplificar demais o fenômeno e até culpabilizar a vítima”, explica o especialista.
Segundo Colombini, existem, na verdade, contextos de maior vulnerabilidade, como solidão, luto, separação, mudanças importantes na vida, necessidade de conexão afetiva ou uma rede de apoio mais fragilizada.
“Isso não significa que a pessoa seja ingênua, frágil ou tenha algum transtorno psicológico. A vulnerabilidade muitas vezes é circunstancial. Uma pessoa pode estar muito bem em várias áreas da vida e, em determinada fase, estar mais suscetível a um vínculo manipulativo, tóxico ou nocivo”, afirma.
Inteligência não é vacina contra a manipulação
Um dos pontos que mais chamam a atenção no estelionato afetivo é que suas vítimas não correspondem necessariamente ao estereótipo de alguém desatento ou sem experiência.
De acordo com o psicólogo, inteligência não imuniza ninguém contra a manipulação emocional. Isso acontece porque esse tipo de golpe costuma ser construído de maneira progressiva e planejada.
“Primeiro vem o vínculo, a atenção, a sensação de intimidade e a validação. O golpista vai entendendo quem é aquela pessoa, o que ela deseja, do que sente falta e como construir uma história convincente”, explica.
Depois que existe investimento emocional, mecanismos psicológicos podem dificultar a identificação das inconsistências.
“Quanto mais tempo, afeto, expectativa e até dinheiro a pessoa investiu, mais difícil pode ser aceitar que aquela história era uma fraude”, afirma Colombini.
Por isso, para o especialista, a pergunta “como uma pessoa tão inteligente caiu nisso?” é inadequada.
“A questão mais relevante é entender como aquela relação foi construída de maneira suficientemente convincente para ‘furar’ os mecanismos de proteção daquela pessoa.”
Sinais que exigem atenção
Entre os sinais que podem indicar uma situação de estelionato afetivo estão relacionamentos que avançam rápido demais, histórias difíceis de verificar, dificuldade recorrente para encontros presenciais ou videochamadas, emergências frequentes, pedidos de dinheiro, solicitações de sigilo e contradições na narrativa.
Outro alerta importante é o afastamento da família e dos amigos. A pessoa pode passar a interpretar qualquer questionamento como uma tentativa de destruir seu relacionamento.
Nesse momento, porém, a abordagem dos familiares é fundamental.
“Confrontar, ridicularizar ou dizer ‘você está sendo enganado’ pode aumentar a vergonha e fazer a pessoa se fechar ainda mais”, alerta Colombini.
Para o psicólogo, perguntas podem ser mais eficazes do que acusações: “O que você sabe sobre essa pessoa que foi realmente verificado?”, “Quantas vezes vocês se encontraram?”, “As histórias são consistentes?” e “Por que sempre aparece uma emergência associada a dinheiro?”.
“O objetivo não é vencer uma discussão. É ajudar a pessoa a recuperar a capacidade crítica sem humilhá-la ou julgá-la. O que se busca é conexão, e não afastamento”, afirma.
Em tempo: embora o prejuízo financeiro seja a consequência mais evidente, o estelionato afetivo também pode provocar uma importante perda emocional.
“Para a vítima, aquela relação existiu. Os sentimentos, planos, a expectativa e o vínculo foram reais, mesmo que a identidade ou as intenções do outro não fossem”, explica Colombini.
Após a descoberta, podem surgir vergonha, culpa, raiva, ansiedade, sintomas depressivos, dificuldade para confiar novamente e pensamentos recorrentes sobre o que aconteceu.
Uma das consequências mais dolorosas pode ser justamente a perda de confiança no próprio julgamento.
“A pessoa começa a pensar: ‘Se eu não percebi isso, como vou saber em quem confiar daqui para frente?’”, exemplifica.
A reconstrução emocional, segundo o especialista, passa por recuperar essa confiança — e não por ensinar a vítima a nunca mais confiar.
“É preciso ajudá-la a diferenciar confiança de ingenuidade, vínculo de ausência de limites e afeto de abandono dos critérios de realidade”, orienta o psicólogo.
Mais sobre Filipe Colombini: psicólogo, fundador e CEO da Equipe AT, empresa com foco em Acompanhamento Terapêutico (AT) e atendimento fora do consultório, que atua em São Paulo (SP) desde 2012. Especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias.