Nicotina interfere no sistema nervoso e no sono e pode favorecer fatores relacionados ao ranger e apertar dos dentes
No dia 29 de agosto é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo, data voltada à conscientização sobre os impactos do tabagismo na saúde. Além dos efeitos já conhecidos sobre os pulmões e o sistema cardiovascular, o cigarro também pode estar relacionado a alterações na saúde bucal, entre elas o bruxismo.
Segundo a Associação Brasileira de Odontologia (ABO), cerca de 40% da população brasileira convive com o bruxismo, condição caracterizada pelo apertamento ou ranger dos dentes, que pode ocorrer durante o sono ou enquanto a pessoa está acordada. O tema ganha relevância diante do crescimento recente do número de fumantes no país. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que a proporção de adultos fumantes passou de aproximadamente 9,3% para 11,6% em 2024.
Um dos pontos estudados nessa relação é a ação da nicotina, substância estimulante que atua no sistema nervoso central. O tabagismo também está associado a alterações na qualidade do sono. Esses fatores são importantes porque os episódios de bruxismo do sono estão relacionados à atividade do sistema nervoso e podem ocorrer próximos a pequenos despertares ao longo da noite.
Segundo a dentista Roberta Bossolani, especialista em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, a associação entre tabagismo e bruxismo deve ser analisada dentro de um conjunto de fatores.
“O cigarro não pode ser apontado isoladamente como causa do bruxismo. O que sabemos é que existem estudos que mostram uma associação entre o tabagismo e o bruxismo do sono, e essa informação precisa ser considerada em uma avaliação que contemple todo o histórico do paciente”, explica.
Pesquisas também têm investigado a relação entre o tabagismo e a Disfunção Temporomandibular, conhecida como DTM. Uma revisão disponível na National Library of Medicine, dos Estados Unidos, identificou maior intensidade de dor relacionada à DTM entre fumantes quando comparados a não fumantes.
A DTM pode atingir os músculos responsáveis pela mastigação e a articulação temporomandibular, estrutura responsável pelos movimentos da mandíbula. Entre os sinais mais frequentes estão dor na face ou na mandíbula, dificuldade para mastigar, limitação ou travamento da abertura da boca e estalos, principalmente quando acompanhados de dor.
Para Roberta, pacientes que fumam e apresentam sintomas recorrentes devem informar o hábito durante a consulta.
“Muitas vezes, o paciente procura atendimento focado apenas na dor ou no desgaste dos dentes e não imagina que informações sobre o sono e o tabagismo também são relevantes. Quanto mais completa for essa investigação, maior é a possibilidade de compreender os fatores que podem estar contribuindo para os sintomas”, afirma.
A especialista orienta buscar avaliação profissional quando houver dor frequente na mandíbula ou na face, dificuldade para abrir a boca, desconforto ao mastigar ou sinais de desgaste dentário.
“O bruxismo precisa ser avaliado considerando a rotina, os hábitos e as condições de saúde de cada pessoa. Identificar os fatores associados é fundamental para definir a conduta mais adequada para cada paciente”, conclui.
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, a data serve como alerta para os malefícios do tabaco na saúde e no cotidiano de fumantes . O impacto do cigarro pode alcançar diferentes sistemas do organismo e interferir em diferentes aspectos. Ampliar essa percepção é parte importante da prevenção e do cuidado com a saúde, especialmente para quem já apresenta sintomas de bruxismo ou DTM.
