Tragédia no Discord expõe urgência de debater vício digital e suicídio juvenil; livro analisa impacto das telas na saúde mental
Para Dra. Regina Nicolosi, autora do livro “Imersão digital e suicídio”, o vício leva a uma sedação do corpo e ao rebaixamento dos sentidos
A morte de uma menina de 13 anos, induzida ao suicídio durante uma transmissão ao vivo no Discord, escancarou uma ferida que o Brasil vinha evitando encarar. A plataforma admitiu que seu sistema de proteção levou quase duas horas para derrubar a live, tempo suficiente para consumar a tragédia. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) respondeu com uma medida inédita: a suspensão das transmissões ao vivo da rede em todo o território nacional, com base no ECA Digital.
O caso, porém, não é isolado. Ele é apenas o sintoma mais visível de um fenômeno que cresce em silêncio, dentro de quartos fechados e atrás de telas sempre acesas: o vício digital e sua relação direta com o sofrimento emocional e a ideação suicida entre crianças e adolescentes hiperconectados.
É esse o tema que a Dra. Regina Nicolosi, psicóloga, investiga desde sua tese de doutorado. No livro “Imersão Digital e Suicídio: a mortificação do corpo na sociedade midiática”, ela propõe uma linha provocadora e, agora, dolorosamente atual: a imersão digital leva a uma “sedação do corpo” e ao “rebaixamento dos sentidos”, culminando na perda de empatia e na intensificação do sofrimento emocional.
A “mortificação do corpo” que antecede a tragédia
Para a especialista, a explicação começa no corpo. Uma criança, adolescente ou adulto que dedica horas e horas às telas tem a atenção focada em apenas dois sentidos: visão e audição. Com o tempo, os demais sentidos perdem a acuidade. É o que ela chama de “mortificação do corpo”: um amortecimento inconsciente dos sentidos externos, aqueles que nos conectam ao outro e ao ambiente, para que o indivíduo consiga absorver uma quantidade infinita de cores e informações, muitas vezes sem processá-las de fato, permanecendo preso em um looping do qual não percebe saída.
“Imagine tudo isso em crianças e adolescentes que ainda estão em estágio de desenvolvimento, no qual tudo depende dos sentidos”, alerta a Dra. Regina. É nessa fase que se aprende a reconhecer emoções, a ler expressões, a construir vínculos. Quando esse processo é interrompido por uma imersão precoce e excessiva, algo essencial se perde, e é nesse vazio que o sofrimento silencioso encontra espaço para crescer.
O silêncio que esconde o sofrimento
O que mais preocupa a pesquisadora é justamente o silêncio. No caso da menina de 13 anos, a mãe relatou que nunca percebeu alterações de comportamento na filha, descrita como “feliz, educada, carinhosa e cheia de sonhos”. Para a Dra. Regina, essa não é uma falha da família, mas uma característica do próprio fenômeno: o sofrimento emocional ligado ao vício digital raramente se manifesta de forma óbvia.
Os números reforçam a urgência. Segundo estudo da organização internacional KidsRights, uma em cada sete crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos sofre com algum desafio relacionado à saúde mental, e há um ponto crítico nesses dados: a relação entre o descontrole do uso da internet, especialmente de vídeos e redes sociais, e o agravamento desse sofrimento.
A pesquisa da Dra. Regina demonstrou que ainda há uma enorme lacuna no entendimento sobre os impactos da tecnologia digital na saúde mental. Muitos responsáveis não sabem como frear o que já está em andamento, nem como tirar seus filhos de um sofrimento emocional que nasce, justamente, dessa imersão. E é nessa solidão em meio à hiperconexão, pois estamos conectados o tempo todo e, paradoxalmente, mais solitários do que nunca, que predadores virtuais encontram terreno fértil.
Um chamado à reflexão
“Este livro é um chamado à reflexão sobre a forma como nos relacionamos com a tecnologia e, mais importante, sobre como essa relação molda nossa mente, nosso corpo e nossa capacidade, ou ausência dela, de sentir e nos conectar uns com os outros”, afirma a autora.
A Dra. Regina não defende a demonização da tecnologia, mas reforça que é fundamental que responsáveis, educadores, profissionais de saúde e a sociedade em geral compreendam os mecanismos que levam ao vício, ao descontrole e, consequentemente, aos sinais de problemas na saúde mental. Só assim será possível atuar na prevenção e no apoio aos jovens em um mundo cada vez mais conectado e, paradoxalmente, mais solitário.
“Estamos diante de um alerta, para pais, educadores e para a sociedade. O caso dessa adolescente é triste e lastimável, mas deve seguir como alerta para salvar outras vidas. Precisamos reforçar que por trás de toda tela, há uma criança, um adolescente, uma história que precisa ser protegida e preservada, e esse cuidado começa com conhecimento, ampliando esse tema de maneira massiva nas casas, nas escolas e na sociedade”, concluiu Dra. Regina.
Dra. Regina Nicolosi é fonoaudióloga, psicóloga, mestre e doutora em Comunicação. Com quase 40 anos de experiência em atendimentos clínicos, pesquisas e palestras, a especialista lançou seu primeiro livro com foco em saúde mental, embora já tenha participado como coautora de outros materiais ligados à saúde da voz. As pesquisas desenvolvidas durante o mestrado e o doutorado contribuíram para um melhor entendimento das questões abordadas no livro, permitindo o compartilhamento de dados, experiências e esclarecimentos científicos que fundamentam a temática da imersão digital e sua relação com o suicídio. A autora realiza palestras e rodas de conversa em escolas e instituições sobre o tema do livro, além de outras questões relacionadas à saúde mental de crianças, jovens e mulheres.


