Novos medicamentos transformaram o tratamento da obesidade e a tendência é uma medicina cada vez mais individualizada
A chegada de medicamentos como semaglutida e tirzepatida mudou de forma significativa o tratamento da obesidade. Com resultados de perda de peso que até poucos anos atrás eram difíceis de alcançar sem cirurgia, as chamadas “canetas emagrecedoras” também levantaram uma dúvida cada vez mais comum entre pacientes:
a cirurgia bariátrica pode deixar de existir?
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Para Segundo o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Rodrigo Barbosa, a resposta é não. Segundo o especialista, o que está acontecendo é uma ampliação das possibilidades terapêuticas e uma mudança na maneira de decidir qual tratamento é mais adequado para cada paciente.
“As novas medicações não decretaram o fim da cirurgia bariátrica. Pelo contrário, ampliaram as ferramentas que temos para tratar uma doença complexa. Hoje conseguimos individualizar muito mais o tratamento e avaliar se determinado paciente se beneficia mais do medicamento, da cirurgia ou até da combinação dessas estratégias em diferentes momentos”, explica Dr. Rodrigo.
Obesidade vai muito além do número na balança
Durante décadas, pacientes com obesidade importante tinham basicamente três caminhos: mudanças de estilo de vida, medicamentos — que muitas vezes apresentavam resultados limitados — e, nos casos indicados, a cirurgia bariátrica.
A nova geração de medicamentos mudou esse cenário. Fármacos que atuam em mecanismos hormonais envolvidos na fome e na saciedade podem proporcionar perdas expressivas de peso e melhorias metabólicas.
Mas, segundo Dr. Rodrigo, comparar medicamentos e cirurgia apenas pela quantidade de quilos perdidos é um erro.
“Obesidade é uma doença crônica e multifatorial, associada a diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono, doenças cardiovasculares e alterações hepáticas, entre outras condições. Quando escolhemos um tratamento, precisamos olhar para o paciente como um todo, e não apenas para o peso”, afirma.
A decisão deve considerar fatores como grau da obesidade, presença de doenças associadas, histórico de tentativas anteriores de emagrecimento, comportamento alimentar, resposta aos medicamentos, riscos individuais e possibilidade de manutenção dos resultados no longo prazo.
Quem ainda pode se beneficiar da bariátrica?
As próprias indicações para cirurgia metabólica e bariátrica evoluíram nos últimos anos.
Diretrizes internacionais recomendam a cirurgia para pessoas com IMC igual ou superior a 35 kg/m², independentemente da presença ou gravidade de doenças associadas. A cirurgia também é recomendada para pacientes com diabetes tipo 2 e IMC a partir de 30 kg/m².
Em pacientes com IMC entre 30 e 34,9 kg/m², o procedimento pode ser considerado quando os métodos não cirúrgicos não conseguem proporcionar perda de peso substancial e duradoura ou melhora adequada das doenças relacionadas à obesidade.
Isso não significa, entretanto, que todas as pessoas que atendem a esses critérios devam ser operadas.
“A indicação da bariátrica nunca deveria ser automática. É uma decisão individual, feita depois de uma avaliação completa do paciente, dos benefícios esperados, dos riscos e das alternativas disponíveis”, destaca o cirurgião.
“Não seria melhor tentar a caneta primeiro?”
Para muitos pacientes, o tratamento medicamentoso pode fazer parte da estratégia inicial. Entretanto, transformar essa possibilidade em regra também seria inadequado.
Algumas pessoas apresentam excelente resposta aos medicamentos. Outras não alcançam a perda de peso esperada ou desenvolvem efeitos adversos que dificultam a continuidade. Há ainda pacientes que podem recuperar parte do peso após a interrupção da medicação.
Em casos de obesidade mais grave ou com repercussões metabólicas importantes, a cirurgia pode continuar oferecendo benefícios relevantes e duradouros.
“A pergunta não deveria ser simplesmente se a caneta é melhor do que a cirurgia. Precisamos perguntar qual estratégia oferece maior benefício e possibilidade de controle da doença no longo prazo para aquele paciente específico”, explica Dr. Rodrigo.
Bariátrica não é apenas “diminuir o estômago”
Outro conceito que mudou é a compreensão sobre como a cirurgia bariátrica funciona.
Procedimentos como o bypass gástrico e a gastrectomia vertical, conhecida como sleeve, não atuam apenas reduzindo a quantidade de alimento que o paciente consegue ingerir. Eles também provocam alterações em mecanismos hormonais e metabólicos relacionados à fome, à saciedade e ao controle da glicose.
É por isso que atualmente se utiliza cada vez mais a expressão cirurgia metabólica e bariátrica.
Além da redução do peso, o procedimento pode contribuir para a melhora de condições associadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão e apneia do sono.
Cirurgia exige acompanhamento para o resto da vida
Apesar dos benefícios, Dr. Rodrigo ressalta que a bariátrica não pode ser banalizada — da mesma forma que os medicamentos para obesidade não devem ser utilizados sem indicação e acompanhamento médico.
Todo procedimento cirúrgico envolve riscos. Dependendo da técnica utilizada, podem ocorrer deficiências nutricionais e outras alterações que exigem acompanhamento contínuo.
“A cirurgia não termina quando o paciente recebe alta. Existe um tratamento de longo prazo que envolve acompanhamento médico e nutricional, ingestão adequada de proteínas, reposição de vitaminas e minerais quando necessária, atividade física e mudanças sustentáveis de comportamento”, afirma.
Outro ponto importante é que a bariátrica não elimina completamente a possibilidade de reganho de peso. Alguns pacientes podem recuperar parte do peso ao longo dos anos, situação que exige investigação das causas e reorganização da estratégia terapêutica.
Caneta e cirurgia podem trabalhar juntas
Para o especialista, um dos principais avanços atuais é justamente deixar de enxergar medicamentos e cirurgia como tratamentos adversários.
Um paciente pode responder bem ao tratamento medicamentoso e nunca precisar de cirurgia. Outro pode apresentar indicação cirúrgica desde o início. Também existem pessoas que realizaram bariátrica e, anos depois, podem se beneficiar do tratamento farmacológico para auxiliar no controle do peso.
“O futuro do tratamento da obesidade provavelmente será cada vez menos baseado na discussão ‘remédio ou cirurgia’ e muito mais na combinação das ferramentas disponíveis de acordo com a necessidade de cada paciente”, avalia Dr. Rodrigo.
Afinal, a cirurgia bariátrica vai acabar?
Até o momento, não há indicação de que a cirurgia metabólica e bariátrica esteja se tornando obsoleta. Ela continua sendo uma das ferramentas disponíveis para o tratamento de determinados pacientes com obesidade, especialmente diante de quadros mais graves e de doenças metabólicas associadas.
Ao mesmo tempo, a evolução dos medicamentos representa uma importante ampliação das possibilidades terapêuticas.
“Ter mais opções é uma excelente notícia. O objetivo da medicina não deve ser fazer um tratamento vencer o outro, mas encontrar a estratégia mais segura, eficaz e sustentável para cada pessoa. A grande mudança é que hoje podemos personalizar muito mais esse caminho”, conclui Dr. Rodrigo Barbosa.
Sobre Dr Rodrigo Barbosa
Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. CEO do Instituto Medicina em Foco
