Durante anos, o mercado imobiliário brasileiro apostou em apartamentos cada vez menores, integrando varandas à sala, reduzindo áreas abertas e priorizando ambientes internos climatizados. Hoje, porém, outro mercado volta a ser explorado. Em meio à busca por qualidade de vida, bem-estar e conexão com a natureza, áreas externas voltaram a ocupar posição de destaque nos projetos arquitetônicos.
Mais do que uma tendência estética, o chamado “viver fora” reflete uma transformação no comportamento de quem passou a enxergar a casa não apenas como um espaço funcional, mas como um ambiente de refúgio, convivência e desaceleração.
Para Patrick Romann, arquiteto e CEO da Rocha Real, o movimento representa uma retomada de elementos essenciais da experiência de morar. “Passamos muito tempo priorizando espaços totalmente isolados do ambiente externo. O que vemos agora é uma valorização da ventilação natural, da iluminação, do contato com o verde e da possibilidade de viver a casa de forma mais sensorial e humana”, afirma.
Segundo o especialista, a pandemia acelerou diretamente essa mudança de percepção. O longo período de isolamento fez com que muitas pessoas passassem a valorizar ambientes mais abertos, ventilados e conectados ao exterior e à natureza. Ao mesmo tempo, a consolidação do home office aumentou a necessidade de criar espaços de descompressão dentro da própria residência. Nesse contexto, varandas, quintais, jardins e áreas gourmet passaram a desempenhar um papel importante no bem-estar físico e emocional dos moradores.
Além da sensação de conforto, as áreas externas também ajudam a melhorar o desempenho térmico das residências. Em cidades cada vez mais verticalizadas, menos arborizadas e, consequentemente, mais impactadas pelas ondas de calor, jardins, vegetação e soluções paisagísticas funcionam como mecanismos naturais de equilíbrio climático. “A arquitetura inteligente utiliza o verde como uma barreira térmica natural. Hortas urbanas, jardins e áreas vegetadas ajudam a reduzir a temperatura dos ambientes e diminuem a necessidade de climatização artificial”, explica Romann.
Outro fator que contribui para essa valorização é a mudança na dinâmica social dentro das cidades. O desejo por ambientes mais privativos e personalizados passou a ganhar espaço em relação às áreas coletivas tradicionais dos condomínios. Com isso, projetos arquitetônicos começaram a integrar paisagismo, mobiliário e espaços multifuncionais capazes de unir lazer, descanso e convivência no próprio lar.
Mais do que ampliar varandas ou criar quintais maiores, o retorno das áreas externas revela uma nova forma de morar, assumindo também um papel de reconexão com o conforto, a natureza e a qualidade de vida. “O viver fora mostra que a sofisticação está muito mais ligada à sensação de bem-estar e autenticidade do que ao excesso. Hoje, as pessoas querem casas que acolham, respirem e tragam mais equilíbrio para a rotina”, conclui Patrick Romann.
