quarta-feira, maio 6, 2026

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Perda gestacional: por que o medo de engravidar de novo é tão comum?

Depois de uma perda ou de uma gestação difícil, uma nova gravidez pode trazer ansiedade, insegurança e lembranças do trauma

O Mês das Mães costuma ser associado a homenagens, afeto e celebração. Mas, para muitas mulheres, a data também pode reabrir dores pouco faladas, como a perda gestacional, a morte de um filho ou o medo de viver uma nova gestação depois de uma experiência traumática.

A empresária Natália Lopes, mãe de uma criança atípica e fundadora do Voz das Mães, viveu duas perdas gestacionais e recebeu o diagnóstico de uma doença rara durante a gestação. Ao pensar na possibilidade de ter outro filho, ela relata uma dúvida comum entre mulheres que passaram por perdas ou gestações difíceis.

“Eu que vivi duas perdas gestacionais, um diagnóstico de uma doença rara na gestação e toda aquela evolução na minha mente… você fala: ‘e aí, vai ter o segundo?’, ‘e agora?’. Como é que eu vou ter coragem de ter outro filho e passar por tudo isso de novo?”, diz.

O medo de tentar de novo

Para Rafaela Schiavo, psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline, esse medo não deve ser tratado como exagero. Na psicologia, uma gestação após uma perda pode ser considerada um fator de risco para problemas de saúde emocional, justamente porque a experiência anterior pode ter sido traumática.

“É um período traumático. O medo fica voltando”, explica.

Esse medo pode aparecer ainda no planejamento da gravidez ou depois que a gestação já aconteceu. A mulher pode sentir ansiedade, estresse, insegurança e receio de que a história se repita.

Rafaela orienta que o acompanhamento psicológico comece antes mesmo de uma nova gestação. Se a gravidez acontecer sem ter sido planejada, a recomendação é procurar ajuda assim que possível.

“As chances são maiores de ter ansiedade e estresse durante essa gestação posterior. Tanto na gestação como depois. A depressão pós-parto também”, afirma.

A dor não tem prazo

O luto pela perda de um filho também não segue um calendário. Rafaela afirma que, quando se fala da morte de um filho, a lembrança pode seguir doendo mesmo muitos anos depois.

“Quando a gente está falando de um filho, para muitos, você vai ter 80 anos e, ao falar disso, vai doer. Isso não significa que a pessoa não possa reconstruir a vida. Mas mostra que o luto não deve ser medido pelo tempo que passou desde a perda”, diz.

A psicóloga observa que, muitas vezes, familiares e pessoas próximas querem que a mãe ou o pai “melhorem logo” porque também sofrem ao ver aquela dor. O problema é que essa tentativa de acelerar o processo pode aumentar a sensação de isolamento.

“Parar de falar dele é como se não estivesse mais mantendo ele vivo”, alerta. 

Quando procurar ajuda

Rafaela orienta que mães e pais em luto busquem acompanhamento psicológico com profissionais que entendam de luto perinatal. O cuidado pode ajudar a pessoa a encontrar formas possíveis de atravessar o dia a dia sem apagar a história daquele filho.

A Lei 14.721/2023 também reforça a importância da saúde mental nesse período. A norma ampliou a assistência à gestante e à mãe durante a gravidez, o pré-natal e o puerpério, além de prever atividades de educação, conscientização e esclarecimento sobre saúde mental da mulher nesse período.

Esse cuidado pode ser importante não só depois do parto, mas também durante o pré-natal, principalmente quando há histórico de perda, diagnóstico difícil, ansiedade intensa ou sofrimento emocional.

Baby blues ou depressão pós-parto?

No pós-parto, algumas alterações emocionais também podem confundir as mães. Rafaela explica que o baby blues costuma aparecer poucos dias depois que a mulher volta para casa e pode durar até duas ou três semanas.

Nesse período, a mãe pode sentir irritabilidade, choro, medo e alegria ao mesmo tempo. É uma oscilação emocional comum no pós-parto.

Já a depressão pós-parto é um transtorno mental e pode surgir em momentos diferentes. De acordo com a psicóloga, ela pode aparecer logo após o parto ou até um ano depois do nascimento do bebê.

Como o casal pode se preparar

Para quem pensa em ter o primeiro filho ou engravidar novamente após uma perda, Rafaela orienta que o casal faça perguntas concretas antes da decisão.

Se o desejo é ter uma menina, como lidar se vier um menino? Se o plano é parto normal, o que acontece se for necessária uma cesariana? Se há planos de faculdade, carreira ou mudança de vida, a gravidez cabe nesse momento?

“A maternidade é uma caixinha de surpresas. Para querer ser mãe ou pai, você tem que querer independente do que acontecer”, afirma.

Essas perguntas não eliminam o medo, mas ajudam o casal a pensar para além da idealização. Depois de uma perda, esse cuidado pode ser ainda mais importante, porque uma nova gestação pode trazer esperança e, ao mesmo tempo, reativar lembranças difíceis.

A mãe não deve atravessar isso sozinha

O cuidado emocional não deve ficar apenas nas mãos da mulher. Para Rafaela, o pai precisa ser visto como corresponsável, não como ajudante. “O filho é da mãe e do pai. O pai não é ajudante nem rede de apoio, ele é corresponsável”, afirma.

Natália conta que sempre tentou dividir tarefas de cuidado com o marido, inclusive em situações simples, como trocar o filho fora de casa. Ainda assim, muitas pessoas interpretavam a atitude como algo excepcional.

“Ele está exercendo o papel dele”, diz Natália, ao lembrar das vezes em que o marido era elogiado por assumir cuidados básicos com o filho.

Para Rafaela, essa reação mostra como a sociedade ainda trata o cuidado como responsabilidade principal da mãe.

Depois de uma perda gestacional, de um diagnóstico difícil ou de uma gravidez marcada por medo, a orientação é não tratar a nova gestação como uma etapa simples ou automática. O acompanhamento psicológico pode começar ainda no planejamento, especialmente quando o medo de passar por tudo de novo continua presente.

Sobre Rafaela SchiavoProfª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.Possui graduação em Licenciatura Plena em Psicologia e em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Além disso, concluiu seu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e doutorado em Saúde Coletiva pela mesma instituição. Realizou seu pós-doutorado na UNESP/Bauru, integrando o Programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento pré-natal e na primeira infância; Psicologia Perinatal e da Parentalidade. 

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