| O conhecimento na ferramenta tornou-se requisito no mercado |
| Durante muito tempo, um currículo de tecnologia se destacava pelo domínio de determinadas ferramentas. Foi assim com o Excel, PowerPoint e Java, por exemplo. Hoje surge um critério novo, mais sutil, mas com peso crescente nos processos seletivos. Trata-se da capacidade de trabalhar em conjunto com a Inteligência Artificial (IA). De acordo com pesquisa do Stack Overflow, 84% dos desenvolvedores usam IA no trabalho e 51% já recorrem a ela diariamente. Conforme outro levantamento, feito com recrutadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, os candidatos com habilidades nessa tecnologia têm entre 8% e 15% a mais de chance de avançar para uma entrevista, principalmente em áreas como Design Gráfico, Suporte Administrativo e Engenharia de Software. O volume de investimento no setor segue na mesma direção. A Gartner projeta gastos globais com Inteligência Artificial de US$ 2,52 trilhões em 2026, um salto de 44% frente ao ano anterior. Segundo estimativa da Bridgewater Associates, Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet somadas devem aplicar cerca de US$ 650 bilhões em infraestrutura de IA apenas nesse ano. De ameaça a competência esperada Por bastante tempo, o mercado de tecnologia tratou o uso de IA em processos seletivos como algo a ser coibido, criando barreiras e mecanismos de detecção. Um movimento recente inverte essa lógica. As empresas passaram a tratar esse uso como parte natural do trabalho. Em vez de tentar descobrir se a pessoa recorreu à IA, agora o foco é na maneira como isso ocorre. Nesses formatos, quem não utiliza IA dificilmente termina o desafio proposto dentro do tempo estipulado. O objeto de avaliação deixa de ser o código final e vira as decisões tomadas, a forma como a solução foi validada e a capacidade da pessoa de defender o resultado entregue. Se o teste técnico costumava ser o centro do processo seletivo, ele agora funciona como uma primeira etapa. O verdadeiro ponto de corte acontece na conversa seguinte, quando o candidato precisa justificar escolhas, discutir alternativas e reagir a mudanças de cenário propostas pelo entrevistador. Nesse momento, fica claro quem apenas reproduziu uma resposta gerada por IA e quem realmente entendeu o problema. Afinal, a ferramenta pode gerar um código funcional, mas não consegue sustentar esse código diante de uma discussão técnica aprofundada. O que passou a valer mais na avaliação? Dominar uma linguagem de programação deixou de ser suficiente. O diferencial está em saber formular boas perguntas para orientar as soluções, além de manter uma leitura crítica sobre o resultado, identificando falhas, riscos e inconsistências antes de aceitar uma resposta como definitiva. Ganha espaço quem consegue tomar decisões técnicas com autonomia, interpretar resultados e evoluir uma solução a partir do contexto do projeto. Na prática, o discernimento para saber quando e como usar a tecnologia separa um bom profissional de um mediano. *Ariane Abreu é diretora da Total IP |

