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O que é ser velho demais pra você?

Mulher 50+

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“Velho demais” costuma ser uma palavra conveniente. Serve para encerrar conversas, negar oportunidades e empurrar pessoas experientes para fora do jogo. É como se décadas de trabalho, estudo e contribuição pudessem ter seu prazo de validade vencido da noite para o dia.

Curiosamente, o mundo está caminhando na direção oposta. Em países como Japão e Singapura, empresas recebem incentivos econômicos para contratar e manter trabalhadores mais velhos. No Japão, há mecanismos legais para garantir a continuidade do emprego até idades mais avançadas. Em Singapura, o governo subsidia parte do salário de profissionais seniores, tornando financeiramente vantajosa a sua permanência no mercado.

Nos Estados Unidos e Canadá, existem programas públicos de recolocação e requalificação para pessoas acima dos 55 anos, além de leis claras contra a discriminação etária. Numa entrevista de emprego, sua idade nunca é questionada. Em partes da Europa, o foco está na adaptação do trabalho ao ciclo de vida: aposentadorias graduais, jornadas flexíveis e políticas de aprendizagem ao longo de toda a vida.

Em regiões com menos recursos, como partes da África e do Sul da Ásia, a valorização assume outras formas, como pensões universais, transferências diretas de renda e políticas públicas voltadas à saúde do idoso. A Índia, por exemplo, criou fundos específicos para financiar ações de bem-estar e reconhece o envelhecimento como um desafio econômico e social, não apenas familiar.

Esses exemplos mostram algo essencial: envelhecer não significa perder valor. O valor apenas muda de natureza. Experiência, visão sistêmica, leitura de risco, capacidade de mentoria e maturidade emocional são ativos escassos e cada vez mais necessários.

Mas há um outro “velho demais” que me inquieta profundamente: o que acontece dentro de casa.

Não adianta ter milhares de seguidores nas redes sociais, ser um executivo ou uma executiva brilhante, admirado/a no mercado, se você não sabe cuidar dos seus pais ou dos idosos da sua família com respeito e dignidade. A forma como tratamos quem envelheceu é um espelho direto do nosso caráter, pessoal e coletivo.

Cansei de ver a terceirização do cuidado virar terceirização da consciência. Pessoas que passaram a vida contando com o trabalho barato (e muitas vezes invisível) de mães, avós e tias, e que, quando a velhice chega, resolvem tudo com uma internação apressada. Sem presença. Sem supervisão. Sem real preocupação com a qualidade do cuidado. Apenas a urgência de se livrar logo de um problema.

É claro que existem instituições sérias e famílias exaustas, sem apoio, fazendo o melhor que podem. O problema é quando o cuidado vira abandono com recibo. Quando eficiência financeira substitui responsabilidade moral. Quando gratidão dá lugar ao alívio de “tirar isso da frente”.

Ser “velho demais”, no fundo, é um teste. Um teste de humanidade, de ética e de coerência. No trabalho, ele revela se valorizamos pessoas ou apenas resultados de curto prazo. Em casa, mostra o quanto somos realmente capazes de amar.

Idosos não são um problema a ser escondido. São pessoas que sustentaram o mundo antes de nós. Dignidade, tanto no mercado quanto na família, não deveria ter prazo de validade. A propósito, se tudo der certo, também nós chegaremos lá.

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