Educadora parental Thelma Nascimento garante que vigiar telas sem diálogo cria falsa sensação de segurança

Saber a senha do celular do filho não significa, necessariamente, saber o que ele está vivendo emocionalmente. O alerta ganha ainda mais peso em um país onde 92% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos já são usuárias da internet, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil.
Diante desse cenário de hiperconectividade precoce, diferentes países têm discutido limites mais rígidos para o acesso de menores às plataformas digitais, como o projeto aprovado na Austrália que restringe o uso de redes sociais por crianças e adolescentes.
No Brasil, embora o debate avance, especialistas chamam a atenção para um ponto central: mais importante do que apenas proibir ou controlar é garantir presença, escuta e acompanhamento real na vida digital dos filhos.
Segundo a educadora parental Thelma Nascimento, especialista em escuta infantil, quando o tema é internet, muitos pais e mães concentram esforços em ferramentas como controle de tempo de uso, histórico de navegação e restrição de conteúdos.
Embora esses recursos possam ser úteis, especialmente dependendo da idade da criança, Thelma ressalta que eles não resolvem o problema sozinhos. “Essas ferramentas podem até ajudar, mas criam uma falsa sensação de segurança quando não vêm acompanhadas de diálogo e envolvimento real”, afirma.
O próprio Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais do governo federal reforça esse ponto ao destacar que mecanismos de controle auxiliam a gestão do tempo e dos conteúdos, mas não substituem o acompanhamento necessário por parte da família.
Para Thelma, a diferença central está entre controle parental e presença parental consciente. “O controle tenta limitar o acesso à tela; a presença tenta formar discernimento. Um olha para o dispositivo, o outro olha para a criança.”
O impacto invisível da internet no mundo emocional
De acordo com a educadora, a internet não impacta apenas o comportamento, mas o mundo interno de crianças e adolescentes. Conteúdos digitais podem despertar medo, vergonha, comparação, erotização precoce, raiva, fascínio ou confusão. Quando não há espaço seguro para conversar sobre essas experiências, o jovem acaba tentando elaborar tudo sozinho ou, pior, com base no que o algoritmo apresenta.
Autora do livro “Me escuta? Porque toda criança merece ser escutada (inclusive a que vive em você)”, Thelma explica que muitas crianças não contam aos pais o que viram online não por má-fé, mas por medo de ouvir broncas, julgamentos, frases como “eu avisei” ou de perder o acesso à tela.
Esse silêncio ensina uma lição perigosa: a de que sentimentos difíceis precisam ser enfrentados sem ajuda. “A criança aprende que, quando algo a assusta ou confunde, ela deve dar conta sozinha”, alerta.
Para mudar esse cenário, a especialista defende uma mudança de postura dos adultos. Em vez de agirem apenas como fiscais, pais e mães precisam se apresentar como porto seguro. “A criança precisa sentir que pode contar o que viu sem que a primeira resposta seja punição, desespero ou humilhação”, diz.
Como criar diálogo sem invadir ou vigiar
Na prática, isso significa transformar a conversa sobre internet em algo cotidiano, e não em um interrogatório que só acontece quando surge um problema grave. Falar sobre vídeos, jogos, influenciadores, memes e trends deve fazer parte da rotina familiar.
O Guia Brasileiro, inclusive, recomenda que os adultos participem ativamente das atividades digitais das crianças, indo além da fiscalização. Thelma sugere o uso de perguntas abertas, que convidem ao diálogo, no lugar de abordagens acusatórias.
Questionamentos como “o que mais tem aparecido para você ultimamente?”, “tem algo online que te deixou desconfortável?” ou “qual foi a coisa mais estranha que você viu essa semana?” ajudam a criar um espaço de confiança.
Também é importante deixar explícito que contar a verdade será sempre melhor do que esconder. “Dizer em voz alta que vocês podem resolver juntos muda completamente o clima da relação”, explica.
Como reagir a conteúdos sensíveis
Além da conversa, a educadora destaca a importância de organizar o ambiente familiar. Espaços compartilhados para uso de telas, momentos sem notificações, refeições sem dispositivos, cuidado com a rotina de sono e regras claras, ajustadas à idade, ajudam a recolocar a internet no lugar de ferramenta, e não de território sem presença adulta.
Quando surgem conteúdos sensíveis, como pornografia, misoginia, automutilação, violência ou discursos de ódio, Thelma defende uma abordagem firme, porém regulada emocionalmente.
A orientação é acolher primeiro, compreender depois e só então conduzir. “A criança aprende melhor quando não está se defendendo do adulto”, afirma.
Presença vale mais do que vigilância
Por fim, ela alerta para erros comuns que precisam ser evitados, como transformar toda conversa digital em bronca, usar ferramentas de controle como substituto da presença, exigir transparência sem construir confiança e esquecer que o exemplo dos pais também educa.
“Não dá para pedir conexão emocional estando ausente atrás da própria tela”, resume. Para Thelma Nascimento, acompanhar o que filhos consomem na internet não é entrar em guerra com a tecnologia.
“É não abandonar a criança e o adolescente dentro dela. O controle pode fechar algumas portas, mas é a presença parental consciente que ensina quais portas não devem ser atravessadas e por quê.”


