Especialistas alertam para a importância da rotina flexível durante o recesso e explicam como o período pode impactar crianças com transtornos do neurodesenvolvimento e a saúde mental dos pais
Enquanto muitas crianças contam os dias para a chegada das férias escolares, milhares de famílias brasileiras vivem o período com sentimentos mistos. Para pais de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, doenças raras e transtornos de aprendizagem, a interrupção das aulas e das terapias pode representar desafios importantes relacionados à organização da rotina, ao comportamento infantil e ao equilíbrio emocional de toda a família.
Ao mesmo tempo em que o recesso oferece oportunidades valiosas de convivência, lazer e desenvolvimento socioemocional, especialistas alertam que a ausência completa de estrutura pode gerar desregulação, ansiedade e aumento do estresse familiar.
Segundo a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, as férias não precisam reproduzir a rigidez da rotina escolar, mas também não devem significar uma quebra total das referências da criança.
“As férias são fundamentais para o descanso e para o desenvolvimento de habilidades que nem sempre encontram espaço na rotina escolar. No entanto, crianças com transtornos do neurodesenvolvimento costumam se beneficiar de alguma previsibilidade. Uma rotina flexível, com horários minimamente organizados e atividades significativas, ajuda a reduzir a ansiedade e favorece a autonomia”, explica.
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan destaca que o período também pode revelar dificuldades que passam despercebidas durante o calendário letivo.
“Quando a escola entra em pausa, muitos pais observam de forma mais intensa questões relacionadas à atenção, regulação emocional, tolerância à frustração e interação social. Isso não significa que a criança esteja piorando, mas que a família passa a conviver mais horas com situações que antes eram compartilhadas com professores e outros profissionais”, afirma.
O outro lado das férias: o cansaço dos pais
Além das adaptações das crianças, especialistas chamam atenção para a sobrecarga emocional dos cuidadores. Dados de diferentes estudos internacionais já demonstraram que pais de crianças com necessidades de suporte adicionais apresentam índices mais elevados de estresse, ansiedade e exaustão quando comparados à população geral.
Durante as férias, esse cenário tende a se intensificar. A redução das atividades estruturadas, a necessidade de conciliar trabalho e cuidados e a falta de redes de apoio aumentam a pressão sobre as famílias.
Para Natália Lopes, mãe atípica e fundadora do Voz das Mães, o discurso romantizado das férias nem sempre contempla a realidade vivida por muitos lares.
“Existe uma expectativa de que as férias sejam um período leve e divertido para todos, mas muitas famílias enfrentam desafios invisíveis. Nem sempre é possível viajar, participar de programações adaptadas ou contar com apoio. É importante reconhecer que o cansaço dos pais existe e que buscar ajuda ou estabelecer limites não significa falhar como mãe ou pai”, ressalta.
Brincar também é desenvolvimento
Apesar dos desafios, especialistas reforçam que o recesso pode ser uma oportunidade rica para o desenvolvimento infantil quando atividades simples são valorizadas.
A terapeuta ocupacional Catiuscia Homem explica que momentos de lazer espontâneo contribuem para diversas habilidades importantes.
“Brincadeiras ao ar livre, jogos de regras, atividades sensoriais, culinária em família e experiências cotidianas estimulam funções executivas, coordenação motora, autonomia e habilidades sociais. O brincar livre é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento e não deve ser visto apenas como entretenimento”, destaca.
Segundo ela, o excesso de telas costuma surgir como alternativa para preencher o tempo livre, mas o ideal é buscar equilíbrio.
“As telas podem fazer parte da rotina, mas não devem ocupar todo o espaço das férias. O desenvolvimento acontece principalmente nas experiências reais, nas interações e nas oportunidades de exploração do ambiente”, acrescenta.
Quando manter terapias durante as férias?
Uma dúvida frequente das famílias é se as terapias devem continuar durante o período de recesso.
De acordo com a psiquiatra Fabricia Signorelli, a resposta depende das necessidades individuais de cada criança.
“Assim como os adultos precisam de momentos de descanso, as crianças também se beneficiam de pausas. Entretanto, em alguns casos, a manutenção parcial dos atendimentos pode ser recomendada para preservar ganhos importantes, especialmente quando existem dificuldades significativas de regulação emocional, comportamento ou adaptação. A decisão deve ser construída de forma individualizada entre a família e a equipe multiprofissional”, explica.
A especialista reforça que as férias também podem ser utilizadas para fortalecer vínculos familiares e ampliar repertórios sociais.
“Não existe a obrigação de transformar as férias em um período de estímulos constantes. O mais importante é garantir experiências positivas, respeitando os limites da criança e da família.”
Menos cobrança, mais conexão
Para os especialistas, o principal aprendizado das férias pode estar justamente na desaceleração. Em um contexto marcado por agendas lotadas e excesso de compromissos, o recesso oferece uma oportunidade para fortalecer vínculos afetivos e observar a criança além do desempenho escolar.
“A infância precisa de espaço para brincar, descansar, experimentar e conviver. As férias não são um intervalo no desenvolvimento; elas fazem parte dele”, conclui Silvia Kelly Bosi.

