Pesquisas apontam redução da atividade cerebral em usuários de IA durante tarefas cognitivas; especialistas destacam que a tecnologia pode ser aliada quando usada de forma consciente.
Minas Gerais – Julho de 2026. Celebrado em 22 de julho, o Dia Mundial do Cérebro propõe neste ano uma reflexão sobre como os hábitos ligados à tecnologia estão influenciando o funcionamento do cérebro. Dados do relatório global AI Diffusion Report, da Microsoft, mostram que o uso da inteligência artificial chegou a 17,8% da população mundial em idade ativa no primeiro trimestre de 2026. Ao todo, 26 economias já ultrapassaram a marca de 30% de usuários ativos.
No Brasil, segundo estudo divulgado pela OpenAI em 2025, o país está entre os três que mais utilizam o ChatGPT semanalmente, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Os brasileiros enviam cerca de 140 milhões de mensagens por dia à plataforma, dentro de um total superior a 2 bilhões de comandos diários em todo o mundo. Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial aumenta a produtividade e simplifica tarefas do dia a dia, pesquisas recentes indicam que o uso excessivo da tecnologia pode reduzir o esforço mental quando ela passa a substituir, e não apenas apoiar, o raciocínio.
Uma pesquisa da MIT Media Lab, Estados Unidos, acompanhou voluntários durante atividades de escrita feitas de três formas: sem qualquer auxílio, com mecanismos de busca ou com inteligência artificial. Os resultados mostraram que os participantes que utilizaram a IA apresentaram o menor nível de atividade cerebral, com redução de aproximadamente 47% no engajamento neural.
O neurologista e professor da Afya Educação Médica de Belo Horizonte, Dr Philipe Marques da Cunha, comenta que o uso frequente da IA pode favorecer um fenômeno conhecido como descarga cognitiva, em que parte do processamento mental é transferida para ferramentas externas.
“Isso reduz o esforço necessário para resolver tarefas e, quando ocorre de forma excessiva, pode limitar a aquisição de novas habilidades e enfraquecer competências já consolidadas. A maior dependência da IA está associada a menor capacidade de pensamento crítico, principalmente quando há aumento da fadiga cognitiva. O impacto, entretanto, depende da forma como a tecnologia é utilizada”.
Outro resultado observado na pesquisa foi que mais de 83% dos usuários do mecanismo não conseguiram lembrar trechos dos próprios textos poucos minutos depois de concluí-los. Já os participantes que escreveram sem o auxílio da inteligência artificial apresentaram melhor capacidade de recordar e compreender o conteúdo produzido.
Dr Philipe Cunha afirma que a redução da atividade cerebral não significa necessariamente pior desempenho, mas indica que o cérebro utiliza estratégias diferentes. “Estudos de neuroimagem mostram que usuários de IA recorrem menos à recuperação ativa de informações e mais ao processamento orientado pela ferramenta. Isso pode reduzir o exercício da memória e do pensamento crítico quando há dependência excessiva. Por outro lado, quando usada como apoio, a IA pode favorecer a aprendizagem, a metacognição e a persistência na resolução de problemas. Portanto a IA quando bem usada não atrapalha nossa função cerebral”, complementa o especialista.
Relação humano x máquina
Durante o estudo também foi identificado uma redução gradual da conectividade cerebral conforme aumentava o nível de suporte tecnológico. O grupo que realizou as atividades sem assistência apresentou as redes neurais mais ativas, enquanto os participantes que utilizaram mecanismos de busca ficaram em posição intermediária.
Entre os usuários de IA, o acoplamento neural foi o menor. Mesmo quando esses participantes deixaram de usar o ChatGPT em uma etapa posterior da pesquisa, a ativação cerebral continuou abaixo da registrada em relação aos outros grupos. O coordenador de Engenharia da Computação da Afya Montes Claros, Dr Evandro Júnior, informa que a IA deve ser encarada como uma ferramenta de ampliação da capacidade humana, e não como um substituto do pensamento.
“A principal forma de evitar a dependência é utilizá-la para reduzir tarefas mecânicas e repetitivas, preservando para o usuário as decisões, análises e julgamentos mais importantes. Uma reflexão prática que considero útil é perguntar: se a IA ficasse indisponível por uma semana, eu ainda conseguiria realizar meu trabalho, apenas de forma mais lenta? Se a resposta for sim, provavelmente a IA está funcionando como um acelerador de produtividade. Se a resposta for não, talvez seja o momento de revisar como essa tecnologia está sendo utilizada e quais competências precisam continuar sendo exercitadas”.
Os resultados apontaram que a utilização da inteligência artificial reduziu em cerca de 60% o tempo necessário para a realização das tarefas. Entretanto, essa redução foi acompanhada por uma queda de aproximadamente 32% na carga cognitiva durante o processo de aprendizagem. Dr Evandro Júnior esclarece que à medida que a IA assume tarefas operacionais, competências essencialmente humanas tornam-se ainda mais relevantes. Entre elas destacam-se o pensamento crítico, a criatividade, a capacidade de resolver problemas complexos, a comunicação, a colaboração, a ética e a tomada de decisão baseada em contexto.
“A IA pode contribuir significativamente para o desenvolvimento dessas competências quando utilizada para ampliar perspectivas, simular cenários, fornecer feedback rápido e automatizar atividades de baixo valor agregado. Assim como ocorreu com a internet, os mecanismos de busca e outras tecnologias, a vantagem competitiva continuará sendo das pessoas capazes de formular boas perguntas, interpretar criticamente as respostas e tomar decisões fundamentadas”, conclui o coordenador.
