Guarda-roupa brasileiro pode aderir a transparências, flores e integrar com sua própria natureza




Com o encerramento da semana de alta-costura Primavera 2026, Paris voltou a cumprir seu papel de laboratório criativo da moda global. Entre estreias aguardadas, como Jonathan Anderson na Dior e Matthieu Blazy na Chanel, e narrativas autorais marcantes, as passarelas apontaram menos para o escapismo puro e mais para reflexões sobre tempo, tecnologia, natureza e o valor do feito à mão, temas que devem reverberar no vestir ao longo do ano e terreno fértil para a moda brasileira explorar.
Na Schiaparelli, Daniel Roseberry levou o imaginário fantástico ao limite ao colocar o reino animal no centro da narrativa. A coleção The Agony and the Ecstasy transformou o corpo feminino em criaturas híbridas, com referências explícitas a aves, insetos e seres mitológicos, traduzidas em chifres, caudas, asas, bordados tridimensionais e penas falsas trabalhadas à mão. Em um país como o Brasil, que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta, essa estética encontra espaço para uma expansão de forma simbólica: não pela reprodução literal, mas pela inspiração nas formas, texturas e movimentos da fauna local, reinterpretados em superfícies bordadas, animal print, volumes orgânicos e detalhes artesanais que valorizam a identidade e o fazer manual brasileiro.
Já a Valentino, sob o comando de Alessandro Michele, trouxe emoção, memória e brilho como linguagem estética e política. Partindo de uma carta escrita por Pier Paolo Pasolini durante a Segunda Guerra Mundial, o desfile falou sobre o desejo em meio ao caos. Na passarela, alfaiataria glamourosa, laços, babados, drapeados e bordados luminosos revisitam os anos 1970 e 1980. No Brasil, essa referência pode reforçar peças fluídas, através de tecidos leves, jogos de transparência, brilhos pontuais e alfaiataria menos rígida, adaptada ao clima e ao cotidiano urbano.
A estreia de Matthieu Blazy na Chanel marcou o início de uma nova era para a maison e trouxe uma narrativa mais silenciosa e íntima. Inspirada na imagem de Coco Chanel vestindo uma camisa masculina emprestada de Boy Capel, a coleção apresentou transparências, tecidos leves e construções que dialogam com memória e liberdade. Essa estética encontra eco imediato na moda brasileira, onde sobreposições sutis, tecidos translúcidos e peças que revelam sem expor excessivamente fazem parte do vocabulário contemporâneo do vestir.
Na Dior, Jonathan Anderson apresentou uma das estreias mais comentadas da temporada ao unir flores e cotidiano. A coleção equilibra poesia e realidade com silhuetas naturais, shapes possíveis fora da passarela e uma sofisticação sem exageros. Para o mercado brasileiro, essa proposta se traduz em florais menos literais, volumes suaves e construções que priorizam conforto e movimento, um luxo que conversa diretamente com a vida real e com a necessidade de peças versáteis.
Para a estilista Carolina Mendonça, da marca Deep, o movimento é claro. “A fantasia continua existindo, mas ela vem acompanhada de intenção. Bordados, transparências e flores aparecem pensados para serem reinterpretados, não copiados. Isso abre espaço para adaptações criativas e muito alinhadas com o nosso jeito de vestir”, analisa.
No Brasil, essas referências ganham novos significados ao serem filtradas pelo clima, pela cultura e pelo modo de vestir cotidiano. Elementos como transparências, bordados e flores aparecem de forma mais leve, muitas vezes traduzidos em tecidos naturais e recortes estratégicos. A moda brasileira transforma o imaginário da alta-costura em experiência sensorial e prática, mantendo força estética sem perder usabilidade.
“A gente não replica a passarela, a gente interpreta”, reforça Carolina Mendonça. “O que vem da alta-costura inspira escolhas mais conscientes, autorais e conectadas com a realidade brasileira.” Assim, a moda nacional atua como intérprete sensível das grandes narrativas globais, transformando a fantasia da alta-costura em linguagem possível, desejável e profundamente conectada ao cotidiano.

