segunda-feira, março 30, 2026

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Caminho de Compostela: 31 dias que transformam corpo, mente e propósito

Casal de brasileiros percorreu o caminho saindo da França e conta o que aprendeu com os desafios da jornada

Percorrer 770 quilômetros a pé, enfrentando subidas íngremes, descidas intermináveis e dias consecutivos de esforço físico, pode até parecer uma aventura turística. Mas, para Mauro e Fabiana Koch, a travessia do Caminho de Compostela foi, acima de tudo, uma pausa intencional na rotina e um verdadeiro mergulho em si mesmos.

Durante 31 dias, o casal, que estava vivendo um ano sabático, trabalhando em menor intensidade e exclusivamente on-line, trocou o conforto do cotidiano por trilhas, silêncio e o desconhecido. O que encontraram no caminho foram reflexões profundas, encontros transformadores e a redescoberta do essencial.

A caminhada começou em Saint-Jean-Pied-de-Port, pequena cidade no sul da França, considerada um dos principais pontos de partida do chamado Caminho Francês, uma das rotas mais longas até Santiago de Compostela, na Espanha. Ao chegar na cidade, retiraram o tradicional passaporte do peregrino, documento que é carimbado a cada etapa do trajeto e que também dá acesso aos albergues ao longo do caminho.

O primeiro desafio veio já no início: a travessia dos Pirineus, cadeia de montanhas que separa França e Espanha. Começava ali uma rotina intensa de caminhadas diárias de 20 a 25 quilômetros, atravessando vilarejos, campos e cidades históricas.

Já no terceiro dia o corpo começou a sentir os efeitos. “Essa parte tem muitas subidas e descidas e exige bastante do corpo. Você começa a sentir dor em vários lugares diferentes e, na questão mental, é necessária muita persistência”, relata Fabiana.

Com o passar dos dias, o desgaste físico deu espaço a algo maior: o encontro com outras histórias. Para eles, uma das partes mais interessantes de percorrer o Caminho de Compostela são os encontros entre viajantes de diferentes partes do mundo. Ao longo das semanas, Mauro e Fabiana cruzaram com pessoas de diversos países, incluindo o Brasil, cada uma carregando seus próprios motivos para estar ali.

Uma dinamarquesa de 64 anos decidiu fazer a peregrinação após se cansar da rotina profissional como fonoaudióloga. Um brasileiro sonhava com a jornada havia 18 anos e finalmente havia conseguido alcançar o sonho. Um jovem casal do México que viajou após o casamento. Uma brasileira que vive na Espanha há 20 anos e trabalha em um bar recebendo viajantes. E um grupo de adolescentes italianos de 17 e 18 anos que percorreu o caminho com a família. Histórias distintas, mas com um ponto em comum: a busca por algo além.

Todos esses encontros deixaram reflexões marcantes. “Um casal espanhol nos disse que precisamos de muito pouco para viver. E caminhando você percebe isso na prática, porque quanto menos bagagem carrega, mais leve fica a jornada”, diz Mauro.

Ele conta que sempre quis viajar pelo mundo, não como turista, mas como aprendiz, estando aberto a novas formas de ver o mundo, culturas e crescimento pessoal, e o Caminho de Compostela atingiu esse objetivo. “São muitos quilômetros de caminhada por dia, e no início, essa nova rotina cansa. Mas a partir do momento em que aceitamos que assim serão os próximos dias e paramos de ‘brigar’ com a mente, fica mais fácil. E isso pode valer para outros desafios na vida”, afirma.

Um dos maiores desafios da caminhada

No décimo dia, a caminhada ganhou um novo contorno. Antes mesmo de atingir o auge do desgaste físico, Fabiana sofreu uma lesão no tornozelo que quase interrompeu a jornada. Ela conseguiu seguir apenas até o 12º quilômetro daquele dia. O cenário não era animador: dor intensa, inchaço e a incerteza sobre continuar. O casal decidiu parar e descansar em um hotel. Na manhã seguinte, algo inesperado aconteceu.

“Meus tornozelos estavam muito inchados, o pé nem dobrava, e mesmo com remédios eu sentia muita dor. Nesse dia ainda começou a chover, ficou frio. Orei muito, porque realmente achei que não ia me recuperar rápido o suficiente para continuar no dia seguinte, já que uma lesão dessa pode levar dias ou semanas para curar. Mas no dia seguinte, apesar de ainda sentir um pouco de dor, acordei muito melhor, foi mágico. Também achamos uma pequena loja que vendia bastões de caminhada, o que de início achamos que não seria necessário, mas foi. Isso ajudou muito”, conta.

Para Fabiana, a experiência foi a realização de um sonho e também um exercício de abrir mão do controle.

“É uma experiência muito significativa, e mesmo que seja feita em grupo, é muito individual. Eu me permiti viver coisas inéditas, como dormir em albergues. Para alguém que gosta de planejamento, foi desafiador. Mas transformador”, afirma.

A chegada a Santiago de Compostela marcou não apenas o fim da caminhada, mas o início de uma nova forma de enxergar a vida. “Comemoramos muito, nos emocionamos. Fazer esse caminho foi uma das coisas mais significativas que já fiz”, finaliza.

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