Modalidade realizada fora do consultório amplia autonomia e favorece reinserção social de pessoas idosas
Dados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicados na revista Cadernos de Saúde Pública, indicam que quase 17% das pessoas idosas relatam sentir solidão de forma constante, enquanto 31,7% afirmam vivenciá-la ocasionalmente. Os números reforçam a necessidade de estratégias de cuidado que ultrapassem o modelo tradicional de atendimento em consultório.
A partir dos sessenta anos, mudanças na rotina, como aposentadoria, perdas afetivas e alterações na mobilidade, podem impactar significativamente a vida social. Para o psicólogo Filipe Colombini, nesses casos, o acompanhamento terapêutico (AT) surge como uma modalidade que atua diretamente no cotidiano do paciente.
“O acompanhamento terapêutico acontece nos espaços onde a vida se desenrola: na casa, na rua, em atividades sociais e culturais. Ele possibilita intervenções em tempo real, favorecendo autonomia e reconexão social”, explica.
Diferentemente da psicoterapia exclusivamente clínica, o AT combina escuta qualificada com intervenções práticas voltadas à reorganização da rotina e à ampliação do repertório social. Entre as estratégias estão a retomada gradual de atividades externas, participação em grupos, estímulo à convivência comunitária e fortalecimento de vínculos.
Segundo Colombini, quando persistente, a solidão pode impactar a saúde global. Estudos associam o isolamento social ao aumento de quadros de depressão e ansiedade, além do agravamento de doenças crônicas. “Alterações no sono, perda de interesse por atividades antes prazerosas e sentimento de inutilidade comprometem a qualidade de vida. No AT, trabalhamos essas questões diretamente no contexto em que elas ocorrem”, afirma.
O acompanhamento também auxilia na reconstrução da percepção de autonomia. “Muitos idosos passam a se perceber como um peso para a família. O AT intervém justamente nesse ponto, promovendo protagonismo e estratégias concretas de participação social”, completa.
A atuação envolve, ainda, a orientação da rede de apoio. Familiares e cuidadores podem ser acompanhados para reconhecer sinais de isolamento, ajustar expectativas e favorecer ambientes mais acolhedores.
Para o especialista, a solidão não deve ser tratada como consequência natural do envelhecimento. “Quando há intervenção estruturada e acompanhamento contínuo, é possível reduzir riscos emocionais e ampliar qualidade de vida na longevidade.”
Mais sobre Filipe Colombini: psicólogo, especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias.
