segunda-feira, 15 agosto, 2022

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O Projeto Adam traz viagem no tempo com ação genérica, mas drama tocante

Apesar de elenco afiado, filme da Netflix desperdiça potencial de ser mais que competente.

Do desespero de Charlton Heston frente à Estátua da Liberdade, em O Planeta dos Macacos (1971), ao germinar do multiverso da Marvel, em Vingadores: Ultimato (2019), pouco ou nenhum espaço foi deixado no cinema para explorações inéditas do conceito de viagem no tempo. O Projeto Adam se esforça para conseguir isso por meio de uma mistura de nostalgia, pós-modernismo e um surpreendentemente genuíno sentimentalismo, mas derrapa porque o roteiro de Jonathan Tropper, T.S. Nowlin e Jennifer Flackett e a direção de Shawn Levy não conseguem dosar igualmente esses ingredientes.

O resultado é tão inesperado quanto frustrante: enquanto acerta em cheio caracterização dos personagens e no impacto dramático de suas relações, o longa da Netflix transforma os elementos que deveriam proporcionar um espetáculo de ficção em ruído, pois insiste em minar a profundidade emocional de seu drama e humor singulares com rompantes genéricos de ação.

A trama traz Ryan Reynolds repetindo com menos sucesso a parceria com Levy que rendeu o irresistivelmente divertido Free Guy – Assumindo o Controle (2021). Trazendo ecos de sua interpretação fracassada de Hal Jordan em Lanterna Verde (2011), o astro vive Adam Reed, um piloto do ano 2050 que rouba uma aeronave capaz de viajar no tempo. A bordo da geringonça, o bonitão vai parar em 2022, quando tinha 12 anos de idade, problemas com asma e apanhava de valentões no colégio. Obrigado a recrutar seu eu adolescente (Walker Scobell) para o cumprimento de uma missão para lá de pessoal, Reed se vê mira da implacável Maya Sorian (Catherine Keener): uma mulher envolta em interesses escusos que é -sócia do pai morto do piloto, Louis (Mark Ruffalo) — físico que acidentalmente tornou-se patrono da tecnologia que viabilizou a viagem temporal.

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Tanto som e fúria significa pouco mais que nada em O Projeto Adam, um filme que existe muito mais para versar sobre luto e amor do que sobre pseudociência de tela grande. Cumprindo a cartilha exigida pelo cinema-pipoca da atualidade, Tropper, Nowlin e Flackett obrigam Reynolds a apresentar já no primeiro terço do filme todas as regras de viagem temporal que ditarão o pouco mais de 1h40 de duração da trama. O resultado é que qualquer chance de fascínio ou descoberta com o desenrolar das idas e vindas cronológicas acaba sacrificado. “Só existe um lugar no tempo onde você pertence, em um nível quântico”, ele diz, rejeitando uma referência ao multiverso dos Vingadores levantada por Scobell e cravando o apagamento de qualquer realidade alternativa a partir de sua interferência no passado: “Esse é o seu tempo fixo”. Obviamente, não é uma interpretação inédita nas telonas, e também obviamente, avisa o espectador mais escolado no gênero que o terceiro ato do longa guardará aquela velha história sobre abrir mão de uma realidade alternativa ideal em prol do bem maior. Pois que rolem os créditos, obrigado e tchau.

Ou não, porque sempre que permite aos seus personagens o espaço para interações mais descompromissadas, O Projeto Adam se eleva a algo similar a uma comédia dramática de primeira linha. O texto de Tropper, Nowlin e Flackett, enquanto pedestre no seu trato dos elementos de ficção científica, é ácido e frenético em suas passagens humorísticas, mas profundo e ressonante em seus picos dramáticos. Em ambos esses momentos, a direção de Levy navega bem o limiar do piegas, amarrando com certa finesse as transições de tom. Experiente em navegar essas sutilezas, Reynolds brilha especialmente quando derruba sua típica faceta irônica e se mostra vulnerável, ao mesmo tempo em que o estreante Scobell rouba cenas justamente por evocar com maestria os maneirismos ofensivos do Mercenário Tagarela das telonas.

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Como Ellie, a mãe de Adam, Jennifer Garner (Elektra) acaba relegada a um papel de coadjuvante de luxo, mas é única cena que divide com Reynolds que O Projeto Adam alcança seu ápice. Sentados no mesmo balcão de bar, ambos partilham do luto pela morte prematura de Louis — ela, sem saber que o homem que a conforta com belas palavras é seu filho já adulto. Permitindo que o público testemunhe o reencontro físico de uma pessoa com o seu passado, atravessado pelo filtro universal da dor da perda e do amor familiar, esse momento sim consegue empregar a viagem no tempo de forma legítima e envolvente. É reconfortante, inclusive, como ele rapidamente rejeita a possibilidade de repetir De Volta Para o Futuro (1985) e não cai armadilha de pincelar qualquer interesse amoroso incestuoso entre mãe e filho.

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