terça-feira, julho 28, 2026

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O dono precisa virar influenciador para a empresa crescer?

A exposição do fundador pode gerar confiança e vendas, mas também criar dependência, limitar a escala e ampliar riscos para a marca.

Quando uma empresa tem um rosto conhecido, a relação com o público tende a ganhar um atalho. O fundador pode explicar decisões, defender ideias, mostrar bastidores e responder diretamente às dúvidas dos clientes. Essa presença ajuda a humanizar o negócio, mas também criou uma nova pressão: além de administrar a operação, o dono passou a sentir que precisa produzir conteúdo diariamente para continuar vendendo.

Na avaliação de Leandro Ferrari, especialista em marketing digital, a exposição do fundador pode funcionar como uma alavanca de confiança, sobretudo em negócios novos ou baseados em conhecimento. O cuidado está em transformar essa visibilidade em um ativo da empresa, sem fazer toda a receita depender da presença constante de uma única pessoa.

O Edelman Trust Barometer 2026, pesquisa global que acompanha há 26 anos a confiança nas instituições, ouviu 33.938 pessoas em 28 países. Entre os participantes que confiam em influenciadores de alimentação e estilo de vida, 62% disseram que passariam a confiar ou considerariam confiar em uma empresa antes vista com desconfiança caso ela fosse recomendada por uma dessas vozes. O dado ajuda a explicar por que pessoas reconhecidas conseguem transferir parte de sua credibilidade para uma marca.

No ambiente empresarial, essa lógica alimenta o chamado founder-led growth, modelo no qual o fundador participa ativamente da comunicação, da geração de demanda e do relacionamento com o mercado. A estratégia aparece com frequência em startups, consultorias, empresas de tecnologia e negócios digitais, segmentos nos quais a história de quem criou a solução costuma estar ligada ao próprio problema que ela busca resolver.

Essa atuação não exige transformar o empresário em celebridade ou expor detalhes da vida pessoal. Conteúdos técnicos, análises de mercado, relatos sobre decisões difíceis, aprendizados e posicionamentos bem fundamentados podem aproximar o público sem descaracterizar a função de liderança. O ponto central está na capacidade de traduzir a experiência do fundador em informações relevantes para quem acompanha a empresa.

“O fundador reúne vivência, visão de mercado e repertório para falar com propriedade sobre o negócio. Quando essa comunicação tem conteúdo e coerência, ela pode reduzir a distância entre a empresa e o consumidor”, afirma o especialista. Segundo ele, a estratégia perde força quando a exposição se resume à repetição de frases motivacionais, tendências passageiras ou publicações sem relação com a atividade da companhia.

A concentração da comunicação em uma única figura também produz riscos. Uma fala mal interpretada pode atingir a reputação empresarial, enquanto o afastamento temporário do fundador tende a derrubar o alcance e a geração de oportunidades. Internamente, a dependência pode impedir que executivos, especialistas e funcionários desenvolvam autoridade própria.

Outro sinal de alerta surge quando clientes passam a comprar acesso ao dono, mesmo que o produto dependa de uma equipe. Essa expectativa dificulta a delegação, sobrecarrega a liderança e cria frustração à medida que a operação cresce. A marca pode vender mais em determinado momento e, ainda assim, se tornar menos preparada para funcionar sem seu principal porta-voz.

“Uma presença bem construída deve abrir espaço para a empresa, para o produto e para outras pessoas da operação. Se apenas o fundador consegue gerar confiança, a comunicação ainda não acompanhou o crescimento do negócio”, conclui Ferrari.

A participação do dono costuma ser especialmente valiosa nas fases de validação e posicionamento, quando o mercado ainda precisa entender quem está por trás da proposta. Com a maturidade, a empresa precisa distribuir essa credibilidade entre resultados comprovados, clientes, equipe, processos e canais próprios. O fundador pode continuar diante das câmeras, desde que a marca também saiba sustentar a conversa quando ele sair de cena.

Por Diego Baião

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